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GICELA MÉNDEZ RIBEIRO Cantora Argentina 25.08.2008 - Entrevista realizada por Paulo Vinícius
Gicela é uma apaixonada por chamamé. Canta desde criança em festivais. Hoje faz shows e já se apresentou na Argentina, Brasil, França e EUA. Foi muito atenciosa com a galera do Clickduplo em seu camarim. Acesse http://br.youtube.com/watch?v=bqzIIkZhL7M e assista a um show de Gicela no Salón Gran Paraná, em Corrientes, Argentina. Uma voz impressionante.
O que o Chamamé representa em sua vida?
Representa minha infância. Sinceramente, quando escuto o acordeón do meu pai, eu durmo. Fico com muito sono e nos ensaios parecia que ele se chateava comigo, porque eu estava sempre bocejando, com sono e acabávamos brigando. Parecia não querer ensaiar. Depois de um bom tempo me dei conta, quando um amigo psicólogo me disse que o acordeón dele me fazia dormir quando estava no ventre da minha mãe. É uma sensação de paz e tranqüilidade. Por isso não posso negar: escutei a gaita e o chamamé antes de nascer. Defino que estamos em um mundo muito globalizado, onde tudo se parece igual, e ter música própria é um privilégio. Pelo menos para mim é assim.
Um comentário sobre a criação da fase infanto-juvenil no XXVI Festival Internacional Ronda de São Pedro.
Acho que é bom criar festivais infanto-juvenis nativista. Aqui, vi muitos festivais que estimulam crianças e jovens. Também fui jurada em 2007, na Califórnia Petiça, em Uruguaiana, e na Cantomania Infantil, em Paso de los Libres, na qual fui ganhadora no juvenil, em 1993. Em Corrientes e em todo o meu pais, o estímulo é pouco. Há uma constante crítica de que jovens não sabem o que querem, não conhecem sua raiz, que escutam outros gêneros que não o folclore, afinal o maior público em festivais é sempre gente maior. Só não sabemos que somos nós, músicos e organizadores de festivais, os principais responsáveis por não estimulá-los. Os pais também são responsáveis. Nós, sendo músicos, temos a maior ferramenta para atrair. Soledad fez isso, quando o folclore estava em "pausa". Em uma noite de Cosquín, ela atraiu jovens e crianças. Assim, puderam entrar muitos cantores jovens a estimular outros.
O que achou do nível das composições?
Achei magnífico, apesar de que foram 600 músicas no total, para escolher 17 na fase regional e 12 na local. Não foi nada fácil. Também me senti à vontade por estar com grandes músicos e compositores como jurados: Joca Martins, Rodrigo Bauer, Sabani Felipe de Souza e Gujo Teixeira. Achei muito bem avaliado também. Assim dá gosto de participar.
No caso de igualdade entre concorrentes, o que é possível considerar com critérios de desempate?
Acho que o critério seria vê-los de novo no palco. Cada músico que sobe e toca a mesma música, nunca toca igual. Sempre há coisas novas a descobrir. A partir daí, então, analisar novamente a interpretação, letra, arranjos e música. Tudo de novo.
A organização do festival.
O mais equilibrado foi a organização do festival. Desde o começo, quando fui para a triagem, notei que havia uma boa organização. Em simples palavras diria que "sabiam o que faziam", pois eram pessoas experientes. Estou eternamente agradecida à Cláudio Machado e Maninho junto com suas esposa Marta, que levam o mesmo nome, e à todos os que apoiaram e trabalharam em silêncio, responsáveis por este sucesso. Todos os músicos concorrentes e público ficaram satisfeitos por este festival transcender as fronteiras. Aqui em Corrientes foi muito divulgado.
Como foi a recepção dos gaúchos com você?
Sempre foi boa. Não é minha primeira vez aqui no Rio Grande. Estive em outros festivais. Desde pequena também estive como público no Festival da Califórnia, em Uruguaiana, onde ano passado realizei o grande sonho de levar meu show a esse festival, que é o maior de todos os festivais nativistas. O chamamé não é aceito pelo regulamento para concorrer. Depois de vários anos, pude fazer um show com chamamé. Sempre tive uma boa recepção com os gaúchos.
O que significou pra você a participação no documentário "Chamamé"?
No início pensei que era tudo mentira. Era um delírio fazer uma produção dessa qualidade. Depois chegaram as produtoras alemãs e escolheram os protagonistas para o filme, na qual eu fui uma das escolhidas. A única mulher cantora chamamecera. Preguntei “por quê eu”? As alemãs me responderam: é você que queremos, por uma simples razão: queremos um músico que luta por seus sonhos. Você se identificará com todos eles. Para mim foi uma carícia, um empurrão.
Você caprichou nos e-mails em português que nos escreveu. Fez algum curso ou tudo que aprendeu foi através do convívio com os brasileiros?
(Gargalhadas) Não sou muito boa, tenho muitos erros. Foi somente através do convívio com meus irmãos, meu avô (já falecido) e todos os meus parentes por parte dele. Uma vez eu quis ser professora de português. Estava estudando em Paso de los Libres e tive a má sorte de a escola fechar no segundo mês. Tenho essa assinatura pendente de ser professora de português. Quero escrever bem, compor e falar melhor. Penso que todos nós, latino-americanos, temos a obrigação de aprender as línguas que nos unem, como o português e o espanhol, para que as fronteiras lingüísticas desapareçam.
Alguma música em especial?
O chamamé é que me identifica como pessoa. Não posso escolher uma em especial, e, como cantora, tenho a obrigação de escutar todas as músicas possíveis. Mas entre todas elas, sigo escolhendo o chamamé.
Suas influências.
Meus ídolos: Deus e minha Virgem de Itatí. Mas uma influência musical que me faz pôr o cabelo de ponta é a intérprete Nacha Roldan, uma cantora de longa trajetória a nível nacional, distanciada das grandes marquises. Ela nunca se interessou em uma produção independente (como a minha), de baixo perfil. Está contra as produções "comerciais", com ideais tão firmes que sempre diz: "A cultura está um pouco esquecida. Estou dedicada a essa canção que está gravada e um pouco esquecida, mas com um poder tremendo".
Como foram as apresentações realizadas nos Estados Unidos?
Foi especial, porque haviam muitos latino-americanos, vivendo lá há 30 ou 40 anos. Tocar no salão oval da Embaixada Argentina foi uma sensação de elevar minha música com muito privilégio. Guardo também as imagens de lá, pois a percepção de quem se encontra longe de sua terra amada é diferente. Parece que o sexto sentido fortalece ainda mais. Todos choravam e cantavam ao mesmo tempo comigo. Sempre lembro uma senhora que, graças às imagens, pôde conhecer "Puente Pexoa", que fazia lembrar seu pai quando cantava.
O seu show é diferenciado. Além da música, apresenta danças e vídeo-clipes. Isso é muito legal. Como surgiu esta idéia?
Surgiu em base que uma andorinha só não faz verão, com alguém atento às pessoas que estão ao seu lado e, com muito amor, buscando estes resultados. O cineasta Marcel Czombos é meu companheiro de estrada. Ele tem um talento reconhecido e premiado a nível nacional e internacional no cinema. Antes, ele somente me acompanhava logisticamente, mas depois nos demos conta de que a música também gera imagens e é necessário estimular e mostrar isso. Cada um com seu trabalho: os músicos com suas inspirações de criar, os bailarinos com suas idéias que às vezes me surpreendem no momento do espetáculo, e ele com as imagens. Todos nós trabalhamos para deixar o público satisfeito, e conhecendo coisas novas além da música.
Como é o ambiente entre os integrantes?
O ambiente é bom, apesar de que tenho outros músicos para completar quando alguém não pode ir, pois alguns têm seu próprio grupo. Quase sempre nós, cantoras, temos essa fama de "histéricas", mas levamos bem. As únicas mulheres somos eu e a Diana, a bailarina. Podemos dizer que somos uma família, pois às vezes brigamos um pouquinho e depois nos ajeitamos (risos). Sempre nos reunimos para comer um churrasco e então fazemos um balanço de nosso trabalho e convivência para poder crescer todos juntos.
Gostou do Clickduplo?
Achei magnífico que tenham registro de encontros como estes, com fotos e entrevistas. Como eu não posso tirar fotos e ter uma lembrança do evento, vocês me salvaram. É importante que as pessoas presentes no evento também lembrem do bonito momento que passamos. E aos que não estiveram, saibam que no ano próximo terá mais.
Gicela, agradecemos pela atenção e simpatia. Muito sucesso pra vocês. Um grande abraço.
Obrigada a vocês por esta entrevista, onde pude contar o que sinto nestes encontros maravilhosos aqui na minha segunda casa. Um abraço gaúcho para todos vocês.
Site: www.gicela.blogspot.com |